Olá a todos!
Aqui é a Julie! Peço a licença pra o espaço de postar os relatos pra postar o que foi um relato emocional decorrente do que senti hoje durante nosso dia com as crianças.
Eu comecei a sentir o que senti porque a idéia do nosso viveiro é ser um momento de vivência e aprendizados com as crianças. Pois preciso dizer que hoje o dia do nosso viveiro foi pra mim um dia muito difícil.
Percebo que não estou vivendo as coisas que gostaria de estar ensinando para as crianças. Percebo que eu mesma não sei viver da forma como gostaria de estar ensinando para as crianças. Percebo uma coisa: nossos hábitos não são sustentáveis. Pouco mudou sairmos do Rio de Janeiro, comprarmos alguns alimentos locais sem venenos para a nossa dieta, compostarmos nossas cascas de alimentos; ainda não plantamos nossa subsistência nem mesmo qualquer fração dela.
Percebo: não trabalho concretamente pela transformação da relação da nossa cultura consigo mesma e com o ecossistema. Enquanto eu escrevo há donos de terras aqui na região, agricultores, envenenando áreas de nascentes e leitos de rios, envenenando mais e mais, a cada dia mais, ao seio da vida, sem falar nos alimentos que vão ser consumidos por milhares de pessoas. Ninguém sabe como sair dessa situação. Ninguém gosta de saber que está comendo alimentos envenenados, ninguém gosta de saber que está envenenando a vida nem vendendo alimentos envenenados para outros comerem, mas ninguém sabe de fato como sair dessa situação e nada resta senão resignar-se. Arre égua. ARRE ÉGUA!
Acho que não tem outra coisa que eu deveria estar aprendendo e ensinando pra as crianças — porque a gente só vai poder ensinar aprendendo mesmo, porque nós mesmos ainda não sabemos — e é a viabilizar uma vida não envenenada.
Hoje aqui a gente compra praticamente a totalidade de nossos vegetais frescos de uma única produtora que alegadamente produz sem usar venenos aqui na Boa Esperança, perto de Lumiar, restringimo-nos basicamente à diversidade do que ela planta e oferece, o que é até um certo cado, mas bastante inferior à super diversidade que costuma constar nos supermercados. Nos parece evidente: melhor não comer um alimento envenenado a comê-lo, ficamos com a diversidade que conseguirmos, desde que puro. Agora, não posso falar dos grãos, que são a parte da nossa alimentação que vem dos mercados, aquela da qual majoritariamente constituímos nossa dieta e que é produzida de forma envenenada. É preciso termos mais dimensão sobre tudo isso. Esses petroquímicos que vêm alçando a fortuna das companhias da agroquímica derrotam nosso sistema vivo, resultam em toda a sorte de doenças, sem falar da DEPRESSÃO. Não se toca tanto nesse assunto. Esse mal endêmico na nossa sociedade hoje, que, da forma mais tragicômica ou aterradora, vem alimentar à outra ponta da mesma indústria química pelo meio das toneladas de psicofármacos que são tomadas diariamente por milhares e milhares de pessoas, ninguém ressalta: agrotóxicos causam depressão. É claro que causam depressão, depreciam a totalidade de nossas funções fisiológicas e ecossistêmicas, como esperar que um organismo diariamente combalido e intoxicado possa estar em pleno cargo de suas faculdades psíquicas e emocionais? Que dizer da emergência atestada de uma massa contínua de suicídios entre agricultores em várias regiões do planeta sincronizada com a adoção do modelo de produção agroquímico? É tudo biocida, todo o modelo: os tóxicos empregados, a relação com a terra que deixou há muito de ser a reverência, a filiação, o honramento e o respeito, a gratidão, e o trabalho devotado e passou a ser uma relação de expoliação, de exaurimento, de dívida, de estupro, de violação, de violência. As companhias da agroindústria estupram os agricultores que estupram a terra e a vida e o alimento que dispõe-se nos mercados é desse estupro filho. E intoxicado. E dele nos constituímos. É depressivo. É depressivo conhecer um pouco mais de casos de agricultores e outros residentes de áreas rurais completamente intoxicados, alguns até o falecimento, outros até a perda de suas funções mentais ou fisiológicas, ou até a perda de órgãos, ou a perda de sua sanidade e felicidade. É depressivo saber que essa situação se verifica e que seguimos perpetuando o mesmo modelo de cultivo, e que a população segue se alimentando de produtos envenenados e que seguimos diariamente envenenando cada vez mais o solo e o sistema vivo. A produção não pára. Desde que esse modelo produtivo se instaurou e já fazem décadas, a cada dia a produção não pára e o acúmulo de toxicidade que hoje se verifica sobre os solos e disperso no sistema vivo não pára de crescer. Em nome de um sistema produtivo sustentor de um hábito alimentar completamente insustentável, desenvolveram essas singelas companhias químicas uma habilidade de extrair do óleo pétrio há milênios e milênios alquimizado pela litosfera componentes biocidas que acharam de empregar para exterminação dos pequenos animais, plantas e fungos, designados pelo desenho cósmico para participar no alimento conosco. Do hábito insustentável, do excesso alimentar humano, o sistema vivo trata de cuidar e designa aos pequenos seres da natureza que controlem a quantidade de tais espécimes de plantas, de forma a compor o equilíbrio do macro-sistema. A soberba humana entende esses pequenos sentinelas por “pragas” e desenvolve venenos para exterminá-los de seus caminhos, pois faz da superfície do planeta o que bem entender. E agora padece da doença. A doença decorre das implicações de nosso mau hábito, exagero, mau arranjo sócio-urbano, encobrimento do solo vivo, abandono do hábito do cultivo por cada cidadão que tem boca para comer. Decorre de nossa ignorância do pertencimento nosso nesse fabuloso arranjo vivo, nosso encaixe e papel. Daí decorre a doença e padecemos. O que quero e preciso ensinar para nossos filhos não é a perder tempo sentados em gavetas aprendendo a repetir e repetir erros. Preciso aprender junto com eles e fazer do hábito ensinamento vivo a como organizar um processo de vida sustentável, honrado, feliz porque existencialmente digno, integrado. É o que percebo: precisamos nos organizar para trabalhar por esse renascimento, o que faço ainda é muito pouco e urge hora de radicalizar. Ir às raízes, incorporar mesmo uma vivência eco-integrada. Hoje o que conto do nosso viveiro são essas reflexões. Desejo aprender para ensinar os hábitos de uma vida realmente integrada.

























